quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Reflexões sobre a eleição 2012: PT na prefeitura?


Postei esse texto no meu facebook no dia de hoje, mas por uma questão de segurança, achei melhor postar aqui no meu blog. Nunca se sabe quem vai ler ou mesmo quem são os reais leitores do Facebook.

Esse texto não é nem um ensaio, é um depoimento, tosco as vezes. São reflexões pessoais minhas baseadas, recortes, devaneios, tirados da trajetória da minha pesquisa de mestrado que ainda está na fase inicial. Por enquanto já li muito, mas só escrevi o primeiro capítulo e começo a escrever o segundo que deverá tratar com maior profundidade dos conceitos de cultura e políticas públicas.
Vamos ao texto inicial...

Desde o começo do processo eleitoral eu estava num big dilema. Votar no Gianazzi um cara que sempre gostei a partir das ações que ele tem feito esse últimos anos junto com o pessoal da cultura ou votar no PT pra tentar não deixar o Serra ganhar. Eu estava nesse dilema, mas agora sei que votarei no Haddad não por ser voto útil.
Depois de tudo o que tenho pesquisado esse ano no mestrado, cheguei a conclusão de que em termos de políticas públicas o PT foi o único governo na historia do Brasil (falando a nível federal) mesmo a fazer algo realmente bom pro povo, com viés democrático, sempre procurando melhorar, lançando decretos cada vez melhores na área da cultura (mais editais e menos mecenato na área da cultura).
Na área de educação, confesso que não concordo muito com o Prouni, pois sei que é um projeto privatista que dá dinheiro público ao ensino superior privado, mas muitas novas universidades federais foram implantadas nos anos Lula para algumas pessoas que dificilmente conseguiriam ter acesso ao ensino superior. Posso dizer que os resultados da gestão PT no Federal, e no municipal (gestões Marta e Erundina) dentro nas minhas áreas foco da pesquisa que são políticas públicas e legislação de cultura e educação foram muito positivos. Tentei achar problemas, mas os pontos positivos superaram e muito os negativos em todos os casos. Antes deles só tivemos governos muito do mal!!! Os resultados da fase PSDB no federal e estadual e do Kassab no municipal são assustadores. Neoliberais até o osso. Zero em termos de políticas públicas efetivas. Muito patrimonialismo na área da cultura, e em todas as áreas muitas terceirizações e muita verba pública escoando pro setor privado. Não posso dizer ainda que o PT tem o governo ideal, mesmo porque a gestão Dilma não tem sido das melhores (principalmente na área da cultura com a já carta fora do baralho a pseudo cantora ministra Ana de Hollanda) mas perto dos outros que estão no páreo para o segundo turno não tenho nem dúvidas quanto ao que poderia ser melhor. Votarei no Haddad para prefeito e bem feliz com isso. Ele deve trazer verbas do federal pra SP (ficamos anos sem alguns repasses por conta da treta Kassab /PT) recolocar a cidade de SP no mapa do Brasil e é essencial que ele ganhe, assim poderemos ter a chance de espirrar os tucanos pra fora do estadual com maior facilidade. Votarei 50 (legenda) para vereador e quem sabe colocar alguém legal do PSOL na Câmara municipal. E pra vc que ainda acha que o mensalão é um problema... procure saber mais sobre a corrupção dos outros partidos em jogo... garanto que o mensalão vai parecer fichinha perto dos escândalos abafados pela mídia.

Algumas reflexões sobre os questionamentos feitos após meu texto inicial:
O caso do pro uni é em relação ao estado mínimo. Nessa situação tira-se verba do Estado para repassar ao setor privado. O certo seria investir essas verbas do prouni na criação de mais universidades públicas e de mais vagas para todos. Quer dizer o estado tem responsabilidade mínima em relação a educação e passa a responsa para o setor privado. Por isso eu não concordo com o Pro uni... esse sim é um projeto ruim... E nem sei se ampliar para (apenas) 10% do PIB pra educação seria realmente eficaz já que nosso problema na educação vai bem além de verbas. 

Em relação á cultura no estadual e municipal minha pesquisa apontou uma tendência muito patrimonialista. Verba para patrimônio, muitas vezes verbas para suprir os próprios projetos internos, casas de cultura, museus, imóveis tombados etc e por outro lado pouquíssima verba para música, por exemplo, a não ser pra projetos internos como OSESP, Santa Marcelina,  Guri, ULM e afins) que recebem diretamente como OS ou são apadrinhados diretamente pelo governo como potenciais para patrocínios em troca de favores político (pratica cada vez mais normal porém não menos absurda). No municipal o único bom projeto, digo democrático, na área de cultura é o VAI que não por acaso é de um vereador do PT e sancionado pela Marta Suplicy. Enquanto isso a lei Mendonça, o mecenato municipal é vergonhoso. Além de ser a ferramenta mais tecnocrata no pool das leis de incentivo não incentiva mais do que uns 10 projetos / ano e quase sempre ligados ao ideal patrimonialista.
 Minha pesquisa é nas áreas de cultura e educação, não parti para o social (apesar de falar um pouco disso), muito menos para o Agro e nem para o econômico (apesar de também falar disso), apesar que tenho que admitir de que tudo estar interligado (sempre). Relatei minha experiência na pesquisa em cultura e educação que são áreas em que atuo principalmente na cultura pois é aí que estão meus pares e é aí que posso discorrer e analisar profundamente.
Me falaram aqui que pro PT cultura é pão e circo, na linha do entretenimento. Discordo. De acordo com a pesquisa, pro PT cultura (durante a gestão Gil e Juca) não era apenas entretenimento, não apenas indústria cultural, isso foi uma herança das fases FHC e Itamar. A lei Rouanet é uma lei da indústria cultural e é uma lei dos liberais. A parte da lei 8313/91 eu fala do mecenato é uma lei de incentivo ao Marketing cultural. O PT desde o início buscou mudar a Rouanet tanto que foram eles juntos ao PC do B que lutaram para termos a nova lei PROCULUTURA (atualmente em trâmites na área de finanças do governo).
È importante lembrar que tivemos 2 anos de ouro da gestão Gil onde todo mundo aprovava projeto. Aprovavem de baciada. Era bem complicado. Eu critiquei muito isso na época. Defendi até que se deveria normatizar mais e hoje me arrependo. Mas de certa forma era complicado pois qualquer um aprovava, mas poucos captavam e desses poucos sabiam realmente como fazer a gestão daqueles projetos elefantes brancos. Se o projeto era reprovado era porque não era legal mesmo, ou porque fugia do escopo de cultura previsto pela lei, ou porque era do escopo de outro ministério (como os projetos de esporte, meio ambiente e turismo que viviam caindo no MINC nessa época) ou mesmo porque era claramente um produto da indústria do entretimento. Quer dizer não era reprovado porque era difícil de escrever. Porém o MINC seguiu os ideais do Juca, economista e acabou indo um pouco mais pro lado tecnocrata.
 A primeira tentativa de mudar mesmo a lei veio em 2006, um decreto do Juca, apesar de ainda ser o Gil no comando, foi tecnocrata demais, apenas buRRocratizou ainda mais o processo (aquele maldito decreto foi traumatizante). Complicou tudo, uma violência simbólica das grandes. Eles perceberam isso logo em seguida. Tentaram mudar pra algo mais fácil... Mas aí veio a Salic Web de supetão em janeiro de 2008 (outra violência simbólica e das grandes).  Inscrever os projetos de um dia pro outro num sistema inoperante online. pois é... Porém o MINC, por outro lado, criou dezenas de projetos pra reverter a verba de mecenato para editais e distribuir melhor a verba como por exemplo o Cultura Viva (conhecido pelos Pontos de Cultura). Aliás recomendo muito a leitura do livro "Pontos de cultura: o Brasil de baixo para cima" do grande mestre Celio Turino antes de qualquer pessoa falar mal da gestão MINC no governo Lula... E esse projeto, assim como outros voltados inclusive à diversidade cultural, não foram nem um pouco pão e circo. Foram projetos sustentáveis de vários tipos e áreas. Acho que essas duas fases MINC  da era Lula foram o que de melhor tivemos em termos de produção cultural no Brasil. Tentaram varias vezes melhorar e melhorar. E por conta da tecnocracia daquele decreto de 2006 acabaram indo pra um sentido oposto na fase Juca, criando editais onde a inscrição cada vez ficava mais fácil. Que muitas pessoas poderiam formatar um projeto. Possibilitaram que a cultura fosse viva de fato.
Pena que da fase Ana de Hollanda não posso dizer o mesmo. Foram 2 anos negros dentro do MINC. Essa entrará pra história como a mulher que vendeu a alma por causa de direitos autorais. Só pensou nessa lei dos direitos autorais em seu favor nos quase 2 anos que ficou por lá. Maldita. Só pensou no patrimônio da família e nos amigos Vips. Mas dela nem gosto de falar. Fui um tropeço na vida da Dilma e dos piores. Relevemos por enquanto.
Tem mais sobre tudo isso na minha pesquisa, páginas e páginas que estão se multiplicando, quem sabe um dia eu publico... Sei que ainda vou falar bem mais de muita coisa. Só foi o primeiro capítulo. Imagina quando chegar no quinto...
Bom, tudo o que falei não foi ‘achismo’, foi na base de pesquisa suada. Posto junto aqui parte da minha bibliografia pra ajudar quem quiser se aprofundar. Mas tem partes mais contemporâneas da pesquisa que a única fonte sou eu mesma que senti na pele cada decreto, cada discurso de ministro tomando, posse, cada reunião no salão nobre da SEC, entre outros processos e situações que vivi bem de perto nesses mais de 10 anos nesse meio da cultura.  
Recomendo também a leitura das diversas pesquisas sobre o assunto que podem ser encontradas nos anais do Encontro Nacional dos Estudos de Cultura da UFBA. Tem muitos textos bem legais lá. Usei bastante. Pesquisadores incríveis como Lia Calabre, Antonio Rubim, etc. Recomendo muito. Geniais.
Mas continuemos a reflexão...
Me falaram que não dá pra analisar um país apenas pelo viés da cultura e da educação. Sei que o país é um todo, mas, além de serem áreas do meu interesse e de muitos dos meus amigos, tb acredito que cultura e educação são pilares de uma boa política. O problema da educação vai bem além da verba... muito além... o problema não é só o mal salário dos professores, o problema começa bem antes de termos professores nesse país.
Também me questionaram sobre a corrupção dentro dos órgãos de cultura que por acaso não devem ser isolados, já ouvi várias historias desse tipo, independente de partidos, mas que são problemas dos gestores desses órgãos e dos governos vigente (claro que se leva muita grana da cultura como inclusive desconfio que aconteceu em SP em 2010 no Proac). Acredito que isso acontece infelizmente em vários lugares do Brasil. Se acontece em cidades aqui do lado imagine por aí... No MINC existe uma auditoria interna do Ministério público muito atuante desde a gestão do Juca, que por acaso já pegou alguns esquemas fortes de lobby lá dentro. Mas como o povo da cultura é ultra mega super cabreiro, e atuante lá dentro, cada podrinho vira podrão rapidinho. Eu já frequentei muito os corredores do MINC, da SEC (estadual e municipal). Conheci do peão ao Ministro. Já ouvi as lendas mais surreais (sou daquelas que adora ficar horas batendo papo com funcionários de carreira, aqueles que tão há mais de década lá dentro). E estas são as melhores histórias, as realmente verdadeiras. Politicagem tem em todo lugar. Os partidos e os ministros passam esses funcionários de carreira ficam. São os que sabem das coisas.
 Minha pesquisa já tem mais de 10 anos, acho que por isso de cultura posso falar um pouco, mas ainda falta muito. Quanto mais cavo esse buraco mais lodo eu encontro. Nas férias partirei para as vias de fato, mexerei com as leis linha a linha e poderei trazer mais dados.
Voltando a educação, quanto aos 10% pra educação sou totalmente a favor, mas acho que é pouco! Pelas pesquisas atuais precisaríamos de pelo menos o dobro disso e uma mudança realmente radical, realmente significativa na educação pra começar a melhorar. Precisariamos mudar também toda a ideologia do país. Isso acho que seriam bem mais difícil. Mas a questão da verba também é um ponto a considerar. Por exemplo, um aluno nos EUA tem um investimento 7 vezes maior do que no Brasil e lá ainda acham que algo está errado na educação já que os ricos aprendem e os pobres não (Mestre Bourdieu me ajude nessa)... bom, o pepino é gigante...vai vendo... até em países bem menores e com mais problemas econômicos bem piores que os nossos o problema da educação é menor. O Brasil é grande demais e diverso demais e por isso a educação é um problema que parece impossível de resolver... quer dizer vai muito além da pedagogia... vai muito além da cultura... O Brasil é jovem e muito diverso. E mais começou a lidar com uma espécie bem estranha de democracia (dita liberal) há pouco tempo. Essa diversidade brasileira ainda é um problema que está sendo pensado na academia, porém já tivemos alguns avanços em termos de política. Só a partir da gestão Lula que começou a ser observado... Se fosse ao contrário não teríamos alguns programas tão criticados como o próprio bolsa família. O jargão "Brasil para todos" não foi por acaso. Apesar de eu criticar que ainda faltou muito pra ser realmente de todos (e acho que ainda precisaremos de uns 10 Lulas pra começarmos a chegar perto de algo mais ou menos ideal) não pude na minha pesquisa  não admitir  que houve ação para que começasse a ser mais democrático. Perto dos governos anteriores o fator democrático foi infinitamente maior. Não foi só marketing não (eu achava isso até fazer a pesquisa e busquei resolver isso e muito). Sei que alguns poderão discordar de mim por conta de algumas políticas feitas em outros setores, mas na cultura tenho certeza que ao e tenho zilhões de pesquisadores que concordam comigo pra me apoiar nessa constatação.
Essa questão me intrigou muito na pesquisa esse ano, precisei de um mês de ‘break’ na escrita e ler mais algumas trocentas páginas pra chegar nessa constatação. Pesquisei tanto disso que já é um mote pro meu futuro doutorado (que aliás já comecei a pesquisa) onde linkarei à questão da cultura também a questão da língua e da educação...
Na educação o buraco é bem mais embaixo. Nem Freud e nem Bakhtin explicam... duvido! Enquanto os pedagogos das linhas diferentes continuarem brigando entre si esse esquema burro de educação por idade e uniforme vai imperar. Educação é muito mais do que isso... Ensinar é muito mais do que isso e aprender mais ainda... o problema é que estamos indo cada vez mais pro viés neoliberal de educação, não só aqui mas é uma tendência mundial. Principalmente por causa das escolas particulares (esquemas anglo e COC da vida). No caso do ensino de língua portuguesa, o PNLD e os PCNs também mostram essa mesma briga burra entre linhas ideológicas de ensino da língua... Vai sair um artigo meu sobre isso esses dias chamado “Das políticas públicas de educação ao livro didático”. Entre muitas coisas falo estruturalistas e funcionalistas se degladiando pelo poder e os bakhtinianos correndo por fora tentando apagar o fogo... aí vira aquela maçaroca de gêneros do discurso mal dados que fariam os tios Bakhtin e Voloshinov se revirarem no tumulo...

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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ser ou não ser nos tempos da existência líquida digital

(publicado originalmente como capítulo do livro "Nosso Ato responsável" da Pedro & João Editores, a partir de uma reflexão feita para o Rodas Bakhitinianas 2012 promovido pela GeGe - UFScar).

O sujeito do século XXI é o reflexo de um mundo individualista e cimentado pelo sistema. Ao mesmo tempo em que vive no social, no nós, o sujeito em seu simulacro busca a todo custo mostrar seu eu e com isso se contrapor ao poder do outro. O mundo competitivo em contraponto ao humano. O ato ético na contemporaneidade aparece envolto pelo senso estético que o mundo atual demanda.

O sujeito contemporâneo fragmentado pela somatória de comportamentos e de influências sociais das mais diversas perde sua personalidade. O viés neoliberal que nos circunda no contemporâneo é regido pela esfera econômica e com isso o sujeito tem dificuldade de exercer sua autonomia. A indústria cultural assola ideologias. O enfraquecimento da autonomia a partir do senso comum de um mundo voltado para o sistema onde o que importa é produzir, lucrar, consumir, trabalhar sem parar, onde o sujeito é um mero peão do sistema também torna o sujeito desresponsabilizado pela própria conduta. O sujeito contemporâneo se veste de simulacros da indústria cultural. A construção de ethos do sujeito é regida pelas tendências da indústria cultural e pelas regras sociais impostas pelas mídias de massas. A internet auxilia na construção desses simulacros. O real life confunde-se com a vida em si. O sujeito do facebook prefere acreditar que aquele avatar construído por ele é realmente seu eu. Parece melhor e mais fácil acreditar nesse simulacro digital do que tentar entender o seu próprio eu. Aquele sujeito que escreve a partir de um simulacro de um avatar reflete na internet uma ideologia de seu eu tipificado e cria seu simulacro de acordo com as tendências da industria cultural.

Hoje o sujeito vive o nós, o coletivo, em seu ambiente de trabalho. As correrias da vida no mundo contemporâneo reduzem o universo do homem urbano ao seu mundo do trabalho. Ele acorda e dorme trabalho. Quando está em seu escritório ele acredita estar vivendo o nós. A coletividade do escritório confunde-se com a coletividade da cerveja com os amigos no fim do expediente.  O assunto nos dois espaços sociais do sujeito contemporâneo quase sempre são frutos da indústria cultural. Seja a novela das oito ou o jogo de futebol do seu time, ou mesmo a política atual, todos os assuntos são regidos pela indústria cultural. É a ideologia da indústria cultural que diz o que deve ser falado, o que deve ser pensado. Quase sempre opinião desse sujeito acompanha o que o jornal de grande circulação escreveu em seu artigo de opinião do dia anterior, ainda que esse sujeito nem leia jornal. A ideologia do cotidiano regida pela indústria cultural. O dialogismo ocorre entre o jornal do dia, os assuntos no escritório, a nova lei assinada pelo governo, a revista de fofoca da semana, o programa de TV mais assistido e o que se está falando no Facebook. Os enunciados da vida são assuntos na mesa do bar no fim do expediente. A ideologia é regida por regras claras das mídias de massa e o sujeito atua mesmo sem saber como continuação da linha de produção da indústria cultural.

O controle operacional da vida já aparecia nas entrelinhas dos produtos da indústria cultural no século XX. Como na cena do filme de Kubrick “2001 uma odisseia no espaço” onde o sujeito já perdido entre o que foi um dia e o que as máquinas a sua volta o transformaram, um simulacro de sujeito. Outro bom exemplo vemos no filme “The Wall” da banda Pink Floyd, onde as crianças são transformadas em pequenos operários, em robôs do ensino. A indústria cultural e a massificação das mídias ditando as regras sociais, as modas, o senso comum e providenciando que a informação se espalhe ainda mais rápido: consuma, seja, conquiste! Essa competitividade da contemporaneidade aliada à velocidade da informação faz com que a cada nova geração a trilogia ‘consuma, seja, conquiste’ se torne ainda mais forte. O eu sobrepondo-se cada vez mais sobre o nós. A deterioração das relações pessoais incidindo na personalidade, trazendo cada vez mais a impessoalidade. O coletivo dá lugar aos interesses pessoais em função do consumo.

A internet ainda que nos traga uma sensação de democratização da força social pode ser também uma ferramenta de construção de simulacros ainda mais perigosos. Uma força que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal do social. Os verbos ‘trollar’, ‘flodar’, e expressões como ‘dar unfollow’ são largamente utilizados pelos usuários das redes sociais. Todas usadas como formas de ameaças e atitudes negativas de socialização na internet. O simulacro criado a partir de avatares seja em forma de nomes sem ligação com personas do mundo real, ou mesmo fotos que não denunciam a identidade do sujeito, possibilitam que essa violência virtual seja ainda mais possível.

A internet, como já dissemos, ainda que traga uma carga democratizadora ao social também possibilita o fortalecimento de arenas virtuais de batalha pelo poder e na maioria dos casos ligados ao fator cultural. Casos como dos debates sobre o que aconteceu no bairro do Pinheirinho em São José dos Campos no final de 2011 são uma clara imagem do poder da internet de gerar grandes arenas, neste caso de luta política. O signo ideológico ou como chamam na internet a  hashtag #Pinheirinho permaneceu por vários dias entre as mais citadas do site twitter. Bastava clicar sobre a hashtag em qualquer página para cair numa arena de lutas ideológicas das mais assustadoras. A hashtag #Pinheirinho poderia levar o sujeito a uma arena onde aconteciam desde pedidos de ajudas de moradores do bairro sitiado em tempo real, a pessoas criticando a atuação do governo, a pessoas apoiando o governo, a brigas pessoais sobre pontos específicos sobre o assunto e até a adolescentes que utilizavam a tal hashtag em frases sem sentido algum com o contexto apenas para se divertir um pouco. O poder da internet de possibilitar que um assunto extrema seriedade e de enorme importância social e política se transforma-se num jogo de adolescentes, ou mesmo discussões fortíssimas sem que nada acontecesse com qualquer uma das partes envolvidas. Num só clique aquilo tudo poderia ser apagado.E ainda que alguém desse um “print” e salvasse aquelas discussões assustadoras seria difícil que alguma ofensa de cunho pessoal pudesse afetar a algum dos atores envolvidos na arena.
A responsabilidade de cada enunciado na internet torna o ato ético fragilizado. Com apenas um clique podemos perder totalmente seu valor institucional. Ainda que no ato da produção de cada enunciado cada frase, cada signo ideológico tivesse atingido o outro de alguma maneira, na esfera institucional, ou no tal mundo do direito, raramente um enunciado poderia afetar algum dos envolvidos. Com isso o ser na internet atua seguro dentro de seu simulacro. Se desresponsabiliza pelo que enuncia.

Neste mundo novo onde a arena de informação vai muito além das televisões, dos rádios do século XX, a produção cultural acaba dialogando com as novas tendências. O artista, aquele que transita entre a vida e a arte, no século XXI surge de dentro de um simulacro envolvido pelo que é delegado pela indústria cultural e mostra não apenas o que a vida o faz produzir mas sim o que o mercado o faz produzir. A produção de cultura no Brasil vive esse paradoxo. Como produzir arte, arte criativa, sem amarras, num Brasil que cada vez mais se entrega às demandas da industria cultural? Como produzir arte no Brasil onde as novas gerações estão entretidas com produtos tecnológicos e novidades digitais que se renovam a cada dia?

Uma das principais características da cultura ocidental é a busca pela autonomia da informação. A cultura seja ela vista como fator civilizatório ou como a conservação da produção criativa de um dado povo é de alguma forma uma busca pela autonomia da informação. Porém graças aos interesses da indústria cultura o caminho tem sido justamente o inverso.

Desde o advento das leis de incentivo à cultura no Brasil nos anos 80 o produtor de cultura brasileiro, seja ele o artista, o artesão, o ator, o músico, vive no paradoxo entre viver de arte ou viver para criar a arte. As leis culturais no país surgiram no início do período de redemocratização, onde a liberdade era evocada como uma possibilidade para a produção artística no Brasil de maneira livre após tensas décadas de poderio militar (leia-se era Vargas mais período de ditadura pós 64). Porém essas leis culturais traziam junto com a ideia de liberdade criativa também o viés neoliberal agregado onde a liberdade ofertada tinha um preço, o de entregar-se aos caprichos da indústria cultural.

O viés liberal das leis de incentivo à cultura no Brasil e o vinculo destas leis com o patrocínio de empresas privadas obriga o artista a produzir uma arte voltada aos interesses do mercado. A arte vira um produto de consumo. O patrocinador que paga para que essa arte possa ser produzida tem o poder de cuidar do processo de criação de perto durante a execução de um projeto cultural. Na contemporaneidade arte e vida continuam não sendo a mesma coisa, mas na unidade da responsabilidade do artista nem sempre se tornam uma coisa só, pois é a indústria cultural que rege a arte no século XXI. O artista se torna uno com as demandas da indústria cultural que são regidas pelas mídias de massa e as infinitas pesquisas sobre o consumidor.

Esta tendência também pode ser observada no âmbito político. As propagandas eleitorais seguem estética do vídeo clip. Slogans, figurinos, cortes de cabelo, inclusive pequenos detalhes como logo marcas dos partidos e cores atuam fortemente como signos ideológicos regidos pela indústria cultural. A campanha de Barack Obama foi um bom exemplo dessa massificação política utilizando estratégias estéticas da indústria cultural. Nas atuais eleições, mais especificamente na cidade de São Paulo também podemos observar essa tendência, chegando ao ponto de um dos principais candidatos utilizar como música de campanha um dos maiores sucessos da indústria cultural brasileira das últimas décadas.

Ser um apocalíptico ou um integrado, ser um autor-criador ou um autor-contemplador no século XXI pode ser bem diferente do que era no não tão distante e analógico século XX. A velocidade das mudanças sociais ampliado pela nova dimensão digital ainda nos traz diversas questões. O que nos parece muito provável é que nas próximas décadas ainda não seja possível responder a todas elas.  Porém o que nos parece claro é que as novas gerações estão cada vez mais a mercê desta indústria cultural regida pelos monopólios corporativos que continuam buscando nos dizer o que vestir, o que comer, para onde viajar, o que assistir nos cinemas, quais músicas ouvir, etc. O que parece certo é que continuaremos com a trilogia “Consuma, seja, conquiste” comandando nossas vidas e sempre começando pelo 'consuma'. Até que o sistema capitalista reine sobre a terra será assim, seja pela TV, seja pela internet, ou mesmo pelo celular, ou por qualquer outra mídia móvel que vier daqui pra frente, consumir ainda será responsável por tudo o que você deve ser.

 Bibliografia: 


ADORNO, Theodor. Indústria cultural e sociedade. Textos Jorge Almeida. Trad. Julia Levy. S. Paulo: Paz e Terra, 2002. 
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética. São Paulo: UNESP, 1993.
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____________.  A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. Trad. de Yara Frateschi Vieira. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
_______ . “Gêneros do discurso”. IN: Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003[1952-53]. p. 261-308.
___________ Problemas da poética de Dostoiévski. 5ed. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010[1963].
____________. Para uma filosofia do ato responsável. Trad. V. Miotello & C. Faraco. São Carlos: Pedro & João Ed., 2010.
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RIBEIRO, A. P.G; SACRAMENTO, I. (Org.) Mikhail Bakhtin: linguagens, cultura e mídia. São Carlos: Pedro & João, 2010.

sexta-feira, 2 de março de 2012

EXPO SANTA CECILIA SANTA INSONE

O projeto SANTA CECÍLIA, SANTA INSONE, é uma exposição coletiva de artes visuais sobre a o Bairro de Santa Cecília, utilizando  vídeo arte, fotografia,  escultura cinética e poesia. O projeto prevê a exposição do trabalho de 10 artistas, que moram, trabalham ou frequentam o bairro, expressando seu olhar sobre a região. Além da exposição, o projeto SANTA CECÍLIA, SANTA INSONE conta com outras atividades: 1 palestra sobre fotografia urbana, 1 palestra sobre vídeo arte; 1 palestra sobre o história do desenvolvimento urbano do bairro Santa Cecília.
Este blog tem a intenção de documentar os ensaios e o processo criativo, também disponibilizaremos materiais e pesquisas sobre a Santa Cecília, making of de produção e depoimentos e outros assuntos residuais do processo.
A exposição se destina á moradores, artistas, arquitetos, trabalhadores do bairro, apreciadores e estudantes de artes visuais, fotógrafos, estudantes do ensino médio, internautas e curiosos.
O projeto que foi contemplado no Edital 21 - CONCURSO DE APOIO A PROJETOS DE ARTES VISUAIS, será realizado com o apoio da Secretaria do Estado da Cultura e do Governo do Estado de São Paulo.
Maiores infos aqui: /http://santaceciliasantainsone.blogspot.com/

domingo, 20 de novembro de 2011

Festival PiB 2011 !!!


O PIB – Produto Instrumental Bruto é um festival de bandas instrumentais, que visa promover a cultura da música instrumental contemporânea e inovadora em toda a sua diversidade de estilos musicais. Em 2011, o projeto traz uma amostra do que será a sua proxima edição em 2012, apresenta uma síntese dessa atmosfera cultural e instrumental, e dessa vez, vem abordar a música instrumental a fim de despertar um olhar mais maduro acerca da atual música e da cultura independente no Brasil.

Esta edição em formato reduzido, acontecerá em 27 de novembro de 2011 na Casa das Caldeiras, trará shows, debate, feira cultural e exposições.

Neste dia será divulgada a lista das 20 bandas instrumentais selecionadas para a proxima edição do festival que acontecerá em 2012, em seu formato original com mais de 30 atrações, entre bandas e atividades culturais.

Em 2011, o festival inicia uma nova fase em sua história, preparando-se para lançar um projeto maior, uma tourne de bandas instrumentais pelo estado de São Paulo chamado PIB TOUR SP, com viagens previstas para o segundo semestre de 2012 por pelo menos 7 cidades paulistas.

Em clima de festa de lançamento, este ano o festival, apresenta em um único dia, diversas atividades e aproveita para lançar a lista de bandas selecionadas para e edição 2012.

PROGRAMAÇÃO:

- Shows com as bandas instrumentais vencedoras da edição 2010 do Festival a partir das 17h: Bandas -

MAMMA CADELA www.myspace.com/mammacadela
MARTINEZ www.myspace.com/martinezjazzfunk
THE MULLET MONSTER MAFIA www.myspace.com/mulletmonster
HUEY www.myspace.com/hueyband

- Debate sobre a atual cena de música independente no Brasil. Debatedores: Alex Antunes (jornalista e musico), Erick Cruxen (Banda Labirinto), José Júlio do Espírito Santo (jornalista), Bruno Kaskata (produtor), Amadeu Zoe (Espaço Serralheria).

- Exposições:
Fotografia: Marília Vasconcellos
Xilogravura: Manuela Romeiro
Colagens: Bel Falleiros
Paisagismo: ACATU - Atelie de Cultura Ambiental e Tratamento Urbano
Skate: Zapata Boards
Escultura Cinética/Móbiles: Guga Landi
Escultura em Papel Marchê: Clau Carmo
Ilustração: Alex Senna

- Feira cultural.

Maiores informações: www.festivalpib.com.br

SERV IÇO: Festival PiB 2011
Dia 27 de Novembro de 2011 (Domingo)
LOCAL: Casa das Caldeiras - Av. Francisco Matarazzo 2000, em frente ao Clube Palmeiras.
HORÁRIOS: a partir das 14h até 21h. Shows começam as 17h00.

Grátis.
Censura Livre.
Venha de bike!

site: www.casadascaldeiras.com.br

twitter/@festivalpib


A lista com as bandas selecionadas para o PIB 2012 apenas estará disponivel no site do projeto a partir do dia 10/ dez/ 2011. Divulgaremos a lista ao vivo no evento do dia 27/11 apareça e conheça antes os selecionados!!

COLABORE COM O FESTIVAL PIB, QUE ESSE ANO SERÁ REALIZADO SEM PATROCÍNIO: ADQUIRA A CAMISETA!!! :D
(R$15,00 só em dinheiro, na feira cultural)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Formalismo Russo e os contos mágicos de Vladimir Propp


A designação Formalismo Russo, segundo Todorov e Jakobson, tem cunho pejorativo e era como seus detratores se referiam aos métodos aplicados; mas foi assim que o movimento ficou conhecido até hoje. Destacavam-se no grupo os então estudantes Viktor Chklovski, Óssip Brik, Yuri Tynianov, Boris Eichenbaum, Boris Tomachevski e Roman Jakobson. Vladimir Propp foi um dos mais tardios a fazer parte do movimento.
Os objetivos eram aproximar a crítica literária, então empírica e positivista, de uma abordagem metodológica e científica; opondo-se as doutrinas simbolistas desprovidas de fundamentação filosófica e de método, ou seja, segregava as relações abstratas. Esta abordagem distanciaria as visões de segmentos das escolas literárias e se prenderiam de fato aos elementos de literariedade do texto, ou seja, aquilo que lhe confere caráter literário.
No inverno de 1914, em Moscou, um grupo de alunos funda o Círculo Lingüístico de Moscou; seus campos eram a poética e a lingüística que através de abordagens paralelas explicitaria referenciais comuns aos dois campos. Estas análises representaram significativa inovação nas relações entre literatura e lingüística.
Nesta época foi cunhado o termo função poética, que consolidou a relação dos referenciais conotativos como um elemento primordial na conformação do texto poético e direcionou os estudos naquela época.
A nova ordem social provocava seus reflexos na cena literária russa, e seus atores de vanguarda inquietos com o esgotamento da velha estética e buscando novas formas de expressão, aliam-se ao Círculo Lingüístico de Moscou; da mesma forma como a revolução alterara profundamente a Rússia os novos poetas pretendiam revolucionar a literatura do seu país.
O Formalismo durou em termos formais até aproximadamente 1930. O objeto de nosso estudo, o russo Vladimir Propp publicou seu principal estudo em 1928 conhecido no Brasil como “A Morfologia do Conto Maravilhoso”.
Através da análise de centenas de contos tradicionais, principalmente os de cunho “mágico” Propp propôs uma nova forma de análise literária destes. Esta análise porém também seria não apenas uma inovação na área da literatura, mas principalmente para a Semiótica moderna estruturalista, inspirando Greimas anos mais tarde em seu trabalho “Semântica Estrutural”.
Propp demonstrou em suas obras um grande interesse pelos contos populares, em especial pelos contos folclóricos russos. Pesquisando tais contos, percebeu a semelhança entre contos oriundos de culturas e localizações geográficas distantes, ao redor do mundo. Buscou então, em suas pesquisas, desvendar os mecanismos por trás desta profusão dos contos folclóricos a partir de três questões que lhe pareciam fundamentais serem abordadas — a forma dos contos de magia, as transformações ocorridas entre contos (que geravam novos contos) e as origens destes contos.
O trabalho de isolar as partes, descrevê-las e analisar as relações entre elas foi realizado meticulosamente. A morfologia, o estudo das formas, na botânica, inspirou Propp a buscar o mesmo nas narrativas folclóricas, nos contos maravilhosos.
Na época, os estudiosos de literatura centravam suas análises predominantemente nas questões de origem, de história. Propp mostrou que não se poderia partir da origem antes de entendermos o objeto real da análise. Primeiro seria necessário entender o que era o conto para depois analisar seu comportamento através dos tempos. Assim, com base em uma análise de um grupo de cem contos populares de origens diversas, Propp descobriu uma estrutura única composta de 31 funções, agrupadas em 7 esferas de ação: agrupadas em 7 esferas de ação:  O Agressor, O Doador,  O Auxiliar, A Princesa e o Pai, O Mandador (chamado mais tarde de Destinador), O Herói e O Falso Herói. Todos, segundo demonstrado em seu livro, seguem uma seqüência idêntica de ações a serem preenchidas pelas personagens. A essas ações ele dá o nome de funções das personagens.
As funções são retiradas da observação das narrativas, como se na verdade uma única narrativa fosse atualizada por diferentes personagens em diferentes situações, criadas por anônimos, ao longo do tempo, pela tradição folclórica de diferentes nações. É quase como uma narrativa que se narra sozinha.
O conto maravilhoso atribui ações iguais a personagens diferentes, por mais diferentes que sejam. Isto permite estudar os contos a partir das funções das personagens. É importante saber “o que” é realizado, e não por “quem” ou “como”.

Para Propp a sequência das funções é sempre idêntica. Pode acontecer de em alguns contos termos mais ou menos funções listadas, mas a ordem de acontecimentos dos fatos deve seguir a ordem de funções proposta por ele.

A obra em questão é detalhista. Propp não propõe imediatamente sua teoria. Inicialmente faz uma análise meticulosa de proposições diversas tentando entender primeiramente o que é o conto e como ele se constitui.

Analisa os elementos que servem para enriquecer a narrativa dos contos de magia, dando mais “brilho” ao conto que está sendo narrado. Funcionam como elementos de apoio, que preenchem lacunas deixadas pelas grandezas constantes e grandezas variáveis dos contos As funções dos contos de magia podem ser agrupadas de maneira lógica em esferas de ação. Tais esferas correspondem às funções que cada personagem realiza na narrativa. Não estão relacionadas às personagens específicas de cada conto, mas às categorias de personagens do conto maravilhoso, ou seja, ao papel que as personagens desempenham no enredo e ao conceito que estão representando.

Existem diversos exemplos desta mesma estrutura narrativa ao redor do mundo todo. O que varia, da primeira história para a segunda, é justamente aquilo que enriquece o conto e o aproxima do contexto sócio-cultural em que é difundido: as personagens e sua caracterização, a maneira diferenciada com que cada personagem realiza os procedimentos a ela delegados na narrativa e o cenário onde a história acontece.


A obra “Morfologia do Conto Maravilhoso” foi sem dúvida umas das maiores contribuições para o estudo da literatura e da linguagem no século XX. Propp foi um ousado vanguardista ao propor com tanta clareza e organização tais teorias para a análise de contos centenários. É evidente que após mais de 80 anos de sua publicação alguns pontos já foram superados ou mesmo reinventados de maneiras mais inteligíveis, principalmente pelos semioticistas franceses ou mesmo pelos teóricos de literatura mais atuais. Mas sem dúvida sua contribuição trouxe ao mundo da literatura não apenas uma nova magia, mas também uma visão de ás vezes linguagem pode ser organizada de maneira formal e previsível.

Bibliografia
Propp, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. Editora Forense Universitária, São Paulo: 2006.

Wöth, Winfried. A Semiótica no Século XX. Ed. Annablume. São Paulo: 1999.

sábado, 13 de agosto de 2011

Um pouco sobre o Folclore...


FOLCLORE

Inti Anny Queiroz

A pesquisa que se segue foi desenvolvida para a disciplina de Literatura Infantil 3 do curso de letras da Universidade de São Paulo e visa abordar, explorar e desenvolver alguns pontos pertinentes ao estudo do folclore brasileiro, principalmente os assuntos relacionados ao universo infantil e a poesia proveniente do folclore infantil no Brasil. A convenção do que significa folclore é o outro ponto abordado na pesquisa. Definir se um fato da cultura popular pode ser realmente definido como folclore e como ocorre a definição disso de acordo com pontos estabelecidos pela UNESCO. Partiremos de estudos realizados pelo conhecido folclorista brasileiro Luiz Câmara Cascudo, que desenvolveu durante toda sua vida diversos estudos sobre o folclore brasileiro, para entender um pouco da historia do Folclore. Um breve contexto histórico da formação de uma cultura popular servirá de base para entendermos como o folclore está inserido na cultura brasileira. Para compreendermos de que modo o folclore foi absorvido por poetas contemporâneos, apresentaremos uma pequena amostra da obra dos poetas Ricardo Azevedo e Eva Furnari, ambos escritores e ilustradores.
Folclore é um gênero de cultura de origem popular, constituído pelos costumes e tradições populares transmitidos de geração em geração. Todos os povos possuem suas tradições, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, contos, provérbios, canções, danças, artesanato, jogos, religiosidade, brincadeiras infantis, mitos, idiomas e dialetos característicos, adivinhações, festas e outras atividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo.
A pesquisa folclórica tem como objeto de estudo “o homem em suas manifestações espontâneas de pensar, sentir, agir e reagir. Pesquisa folclórica é o estudo científico desses fatos, aceitos coletivamente em sua trajetória dinâmica” (GARCIA & SANTOS, 1983, p.110). O reconhecimento de um fato folclórico não depende apenas do reconhecimento popular. “Buscam-se as causas que provocaram seu surgimento, sua difusão, sua função no grupo, sua atual conformação ou seu desaparecimento, estabelecendo-se correlações sociológicas, psicológicas, históricas e geográficas”.(Idem)
A primeira questão pertinente ao nosso estudo é a definição de um fato folclórico nos dias de hoje. Para se determinar se um fato é folclórico, segundo a UNESCO, ele deve apresentar as seguintes características:
·           Tradicionalidade, a partir de sua transmissão geracional, entendida como uma continuidade, onde os fatos novos se inserem sem ruptura com o passado, e se constroem sobre esse passado. Dinamicidade, ou seja, sua feição mutável, ainda que baseada na tradição. Funcionalidade, existindo uma razão para o fato acontecer e não constituindo um dado isolado, e sim inserido em um contexto dinâmico e vivo. Aceitação coletiva: deve ser uma prática generalizada, implicando uma identificação coletiva com o fato, mesmo que ele derive das elites. Esse critério não leva em conta o anonimato que muitas vezes caracteriza o fato folclórico e tem sido considerado um indicador de autenticidade, pois mesmo se houver autor, desde que o fato seja absorvido pela cultura popular, ainda deve ser considerado folclórico.

Historia do Folclore Brasileiro

No Século XIX, D. Pedro estimulou a produção cultural que ativasse símbolos nacionais. Proporcionou o encontro de muitos nobres e estrangeiros endinheirados com artesãos e artistas que precisavam de apoio financeiro para produzir sua arte.
Foi neste período que a arte nacional começou a tomar forma, seja na música, na pintura, na poesia. Gonçalves Dias iniciou esse processo e divulgou nossa personalidade cultural a partir do Poema “Canção do Exílio, um marco na cultura brasileira de exaltação de uma cultura inteiramente brasileira.
Na década de 30 (Sec. XX), Mario de Andrade dirigiu o Departamento de Cultura do Estado de São Paulo entre 1935 e 1938, abrindo cursos para a formação de pesquisadores, onde palestraram eruditos renomados como Lévi-Strauss. As cadernetas dos pesquisadores do departamento estão sendo digitalizadas em 2011 através da Lei Rouanet.
Na década de 1950 essa movimentação se multiplicou em larga escala, atraindo outras figuras ilustres como Cecília Meireles, Câmara Cascudo, Edison Carneiro, Florestan Fernandes e Gilberto Freire,além de estrangeiros como Roger Bastide e Pierre Verger. O movimento folclorista nesta época encontrou a consagração institucional maior na Comissão Nacional de Folclore, fundada em 1947 por Renato Almeida, através de recomendação da UNESCO, vinculada ao Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura e à própria UNESCO. No contexto do pós-guerra, a preocupação com o folclore se inseria nas iniciativas em prol da paz mundial.
A comissão Nacional do Folclore foi incorporada à Funarte, transformou-se em 1979 no Instituto Nacional do Folclore. Em 1990 o Instituto passou a ser denominado Coordenação de Folclore e Cultura Popular, hoje chamado Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), vinculado ao Ministério da Cultura e tendo como missão declarada "formular, fomentar e executar programas e projetos em nível nacional voltados para a pesquisa, documentação, difusão e apoio a expressões das culturas populares brasileiras"
.Em 1986 é aprovada a Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) onde o Folclore brasileiro foi novamente discutido e classificado. A importância de refletirmos sobre a divisão do que é cultura popular e cultura de massas foi novamente posta a prova dentro do assunto Folclore. Muitos símbolos importantes do folclore Brasileiro como o Carnaval fora de época, foram deixados de fora dos benefícios da lei de incentivo a cultura. 
A discussão atual sobre a nova lei federal de incentivo a cultura (PROCULTURA), que atualmente está em fase de aprovação no senado federal.
Luís da Câmara Cascudo (Natal, 30 de dezembro de 1898 — Natal, 30 de julho de 1986) foi um historiador, folclorista, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo da cultura brasileira. Foi professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O Instituto de Antropologia desta universidade tem seu nome. Pesquisador das manifestações culturais brasileiras, deixou uma extensa obra, inclusive o Dicionário do Folclore Brasileiro (1952). Entre seus muitos títulos destacam-se: Alma patrícia (1921), obra de estréia, Contos tradicionais do Brasil (1946). Estudioso do período das invasões holandesas, publicou Geografia do Brasil holandês (1956). Suas memórias, O tempo e eu (1971) foram editadas postumamente. Quase chegou a ser demitido por estudar figuras folclóricas como o lobisomem. Ele escreveu 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore brasileiro, em um total de 8.533 páginas.
Na obra Vaqueiros e cantadores (1939) Cascudo reúne quinze anos de sua vida entre notas, leituras, observações e sonhos de compendiar uma obra que fosse capaz de responder à altura da memória, identidade e alteridade da produção sertaneja.  A obra nos revela a forma de como o homem do sertão encontrou para se manifestar e revelar os seus sentimentos. Récitas de boi, valentia de vaqueiros ou caçadores, os ciclos heróicos de cangaceiros, os tema satíricos envolvendo a política, enfim, a poesia (ou trovas) tradicionais emanadas ao ciclo social, do gado, da memória a que se submete guardar os romances primitivamente cantados desde épocas trovadorescas, quando o Brasil ainda não era Brasil.
Nesta temos a poesia pura, sertaneja, valendo-se de experiências, qual prazer aos cantadores e recitadores é em cantar/contar acontecimentos em seus momentos de ociosidade, causando prazer e até reflexão ou compaixão aos seus ouvintes. A poesia sertaneja por muito tempo se fez como jornal de notícias, de aparatos pedagógicos, de discussão de temas sociais e até denúncias de injustiças acometidas ao povo.
No livro Literatura oral no Brasil (1952) Cascudo verificou a origem, por vezes remota, de fatos e histórias presenciados e ouvidos no sertão. A curiosidade do erudito juntou-se à realidade vivida, base de sua extensa obra, sempre palpitante de vida.
Começando pela origem do conceito de literatura oral, a sua abrangência e vitalidade, limites e transmissão, registrando e estudando as infindáveis manifestações de cultura transmitidas pela oralidade: canto, dança, mitos, lendas, fábulas, tradições, rondas infantis, parlendas, mnemonias, adivinhas, anedotas (importância da oralidade).
Capítulos especiais são dedicados aos contos (contos de encantamento, de exemplo, facécias etc.), autos populares e poesia em suas múltiplas manifestações, completados com antologia. Cascudo registra, analisa, compara a presença de tradições em vários povos, sempre migrando, "ondulantes na imaginação coletiva", a contribuição de portugueses, negros e indígenas, assim como as fontes impressas da literatura oral brasileira, a partir do século XVI, muitas delas ainda presentes em nosso cotidiano, numa impressionante vitalidade do espírito popular.

Folclore Infantil

Nosso estudo buscou exemplificar o folclore infantil a partir de alguns pontos pertinantes ao folclore contemporâneo. O estudo da origem de alguns fatos folclóricos em si não serão abordador aqui. Para pontuar o folclore que permeia o universo infantil, analisaremos alguns pontos como: Lendas(narrativa fantasiosa transmitida pela tradição oral através dos tempos); Parlendas (Trava língua, rima infantil, de ritmo fácil e de forma rápida); Adivinhas (charadas desafiadoras que fazem as pessoas pensar e se divertir); Cantigas de roda (brincadeiras de roda que utilizam musicas); Festas temáticas (junina).

Ricardo Azevedo escritor e ilustrador paulista nascido em 1949, é autor de mais cem livros para crianças e jovens. Ganhou quatro vezes o prêmio Jabuti com os livros Alguma coisa (FTD), Maria Gomes (Scipione), Dezenove poemas desengonçados (Ática) e A outra enciclopédia canina (Companhia das Letrinhas) o APCA e outros. Tem livros publicados na Alemanha, Portugal, México, França e Holanda. Bacharel em Comunicação Visual pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Pesquisador na área de cultura popular. Professor convidado em cursos de especialização em Arte-Educação e Literatura. Tem dado palestras e escrito artigos, publicados em livros e revistas, abordando problemas do uso da literatura de ficção na escola. Tese de doutorado: “Abençoado e danado do samba” – USP / DTLLC. Azevedo comenta sobre o universo infantil e a literatura:

“ Há crianças de 8 anos que já trabalham. Há meninas de 11 anos que já são mães. Há filhos de pais separados. Há crianças que perderam o pai. Há traumas. Há temperamentos. Há sonhos. Há vivências absolutamente pessoais (o gosto, os prazeres, a perspectiva do sublime). Além disso, é possível encontrar, num mesmo grupo, pessoas oriundas de tradições, culturas e concepções de mundo diferentes. Em suma, há de tudo quando levamos em conta o plano da existência particular e não o da genérica, esquemática e higiênica estatística. A visão que temos hoje do que seja criança é ligada, naturalmente, ao nosso contexto histórico, social, científico (epistemológico) e cultural. Estamos habituados a conviver, pelo menos em certas classes sociais, com uma infância apartada da vida adulta (do trabalho, da sexualidade, da política etc), habitando um universo delimitado por assuntos escolares, certo vocabulário, certas brincadeiras e certos assuntos.”

Eva Furnari nasceu em Roma (Itália) em 1948 e chegou ao Brasil em 1950, radicando-se em São Paulo. Formada em Arquitetura, é escritora e ilustradora de livros infantis desde 1980. Tem mais de 50 livros publicados no Brasil e em países da América Latina. Ao longo de sua carreira recebeu diversos prêmios, entre eles. Por diversas vezes recebeu prêmios da FNLIJ e da APCA recebeu o prêmio pelo conjunto da obra.
Colaborando com a Folhinha, suplemento infantil do jornal paulistano , criou sua personagem mais famosa: a Bruxinha. Como autora infanto-juvenil e como ilustradora recebeu o Premio Jabuti nos anos de: 1986, 1991, 1993, 1995, 1998 e 2006. Em 2002 foi escolhida para ilustrar a reedição de seis livros da obra infantil de Erico Veríssimo.




Referências bibliográficas
AZEVEDO, Ricardo. “Literatura infantil: origens, visões da infância e certos traços populares” IN: ESCARPIT, Denise. La literatura infantil y juvenil en Europa. Trad. Diana Flores,  México, Fondo de Cultura Económica, 1981.

CASCUDO, Luis da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. vol. 1 e 2. 8ª ed. São Paulo Global, 2002.

CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura oral no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Global, 2002.

GARCIA, Rose Marie. & SANTOS, Ilka. Preparo básico para pesquisa folclórica. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1983.


Outras fontes:

Site do Ministério da Cultura



Palavras-chave: folclore, cultura popular, poesia infantil, lendas.