terça-feira, 28 de novembro de 2017

Fecharemos 2017 e ainda não começamos a implantar o Plano Municipal de Cultura de SP

Quanto mais mergulho em minha tese e mais observo os processos concretos das políticas culturais, mais fica claro que para gerir as políticas culturais brasileiras pelos métodos da nova Politica Nacional de Cultura é necessário muito planejamento, compreensão de gestão pública, interesse e vontade política de fazer uma gestão realmente democrática, capacidade de compreensão de que um plano de cultura precisa dialogar com o orçamento de cada ano e principalmente TER ORÇAMENTO pro setor.
Quando se trata de uma gestão pro-ativa e interessada isso é possível, ainda que seja muito trabalhoso. Isso é uma raridade...
Quando temos uma gestão de viés privatista e autoritária, que ignora o que está escrito num plano de cultura, isso é praticamente impossível. Não há diálogo. Só entende a política cultural pelo viés de cima pra baixo. Não entende que quem faz cultura somos os trabalhadores da cultura e não o Estado. Hoje temos em SP um exemplo do estado autoritário que se entende como um prestador de serviço e não como um incentivador ou pela possibilidade de construção em conjunto com o setor cultural.
Não respeitar e não implantar o que está escrito num plano de cultura, escrito por milhares de pessoas, é no mínimo uma falta de respeito com os cidadãos de uma cidade.
A lógica do novo modelo de Politica Nacional de Cultura, a partir da execução via planos de cultura, que busca a descentralização e a democratização das políticas culturais, incomoda muito aqueles que sempre tiveram seus projetos atendidos e tem medo de perder a boquinha do balcão... Por isso tem muita gente que se cala. Inclusive gente que se diz militante da cultura. E incomoda ainda mais os gestores vaidosos que querem desesperadamente deixar sua marca numa determinada gestão, com programas novos, ruins e sem legitimidade entre o setor cultural.
Política de governo não pode ser confundida com política de estado! Isso é um problema que afeta não apenas o setor cultural. Não se pensa políticas públicas a longo prazo, pois só o que interessa é a próxima eleição!
Hoje na cidade de SP a situação é catastrófica. Estamos lutando para tentar manter o orçamento da cultura num patamar de pelo menos 4 anos atrás. O retrocesso é tão grande que no próximo ano a projeção é de termos um orçamento aprovado abaixo dos 0,7% do total real e executado a menos de 0,4% do orçamento geral. (fecharão 2017 com execução de menos de 0,5%) Para uma cidade que já chegou a ter mais de 1,3% de orçamento da função cultura aprovado na Lei Orçamentária anual e uma execução de pelo menos 80% disso (chegando a quase 0,8% de execução), é um retrocesso e tanto. Detalhe, a projeção é que a arrecadação da prefeitura em 2018 seja 2 bilhões maior que em 2017.
Quando a arrecadação é ruim cortam da cultura, e quando a arrecadação é boa também cortam da cultura. Por que???
A recomendação da UNESCO para a gestão da cultura é que os municípios tenham pelo menos 1% de orçamento para a cultura EXECUTADOS. Isto é o mínimo do mínimo. Na gestão Haddad, ainda que não absolutamente satisfatório, conseguimos chegar no patamar de 1%. Mesmo com os cortes estivemos mais próximos disso do que nunca estivemos. Em 2017 regredimos à metade disso. Não passaremos de 0,5% de execução em 2017.
São Paulo vem desde dos anos 90 criando e implantando políticas culturais previstas em leis como os Fomentos e o VAI. Um exemplo para todo o país de como se constrói política cultural. Porém a atual gestão da SMC está ignorando estes processos, criando editais sem comprometimento, sem diálogo e desconfigurando leis históricas. E continuam ignorando o Plano Municipal de Cultura aprovado em dezembro de 2016.
O nome disso é desmonte!
E isso afeta inclusive vc, que se inclui nessa apenas como público.
Cultura é um direito previsto na Constituição Federal.
Cultura é investimento no futuro.
Cultura é saúde.
Cultura é educação.
Cultura não é só entretenimento.
Cultura é o que nos torna humanos.
Cultura é tudo!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Temos um Plano Municipal de Cultura em SP ou não temos?

Estamos em outubro de 2017...
Não dá pra esquecer que já estamos em outubro e a atual gestão da Secretaria Municipal de Cultura de SP continua ignorando a existência do Plano Municipal de Cultura de SP. Um Plano que em dezembro completa um ano oficialmente. 
Este Plano vem de um processo intenso de participação social que começou no início dos anos 90, a partir dos fóruns e Casas de cultura, foi reforçado na década de 2000 com as 3 conferências municipais realizadas e se consolidou em 2016 com os encontros de consulta pública que reuniu mais de 5000 trabalhadores da cultura da cidade. 
Agora chegando a etapa final do meu doutorado é possível dizer que o Plano Municipal da Cidade de SP foi um dos mais bem construídos em termos de políticas públicas de cultura e é um dos mais democráticos em termos de descentralização. Hoje este plano é tido como exemplo para outros municípios, pois além de ter tido ampla participação social, traz uma nova lógica de gestão aos planos de cultura ao propor o desenvolvimento decenal a partir da aplicação de ações e metas divididas em PPAs. 
Seria muito importante e producente se a atual gestão compreendesse a importância de introduzir as diretrizes e metas do Plano em sua gestão. Não apenas por sua representatividade e viés democrático, mas porque boa parte das ações que a mesma tem feito (ainda que de forma capenga) já estão previstas no Plano. Isto é, boa parte das metas estão sendo realizadas de alguma forma. Entretanto a polarização política e os acontecimentos iniciais dessa gestão, que congelou mais de 46% da verba da cultura, bloquearam o diálogo com os trabalhadores da cultura.
O Plano Municipal de cultura continua sendo a bandeira principal dos trabalhadores da cultura da cidade. A prefeitura de SP e a SMC, ao ignorá-lo, continuam distanciadas da maioria dos fazedores de cultura. 
Já foram 10 meses de espera. Já não sei mais se isso é birra, desconhecimento dos processos que estão ocorrendo em todo país ou se é preguiça... 
Enquanto isso, na Secretaria Estadual de Cultura de SP, por acaso gerida pelo mesmo partido, as portas estão abertas e o diálogo para a implantação do Plano Estadual de Cultura atualmente caminha e cresce. Estamos prestes a implantar o Conselho Estadual de Cultura via decreto. 
Vai entender...

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A lei do audiovisual estaria ameaçada?

Amiguinhos, não se enganem...
Temer não vai acabar com a lei do audiovisual. (apesar dela ter data de validade até 31/12/17). Logo vão prorrogar isso. Tem gente muito grande interessada nessa lei. Inclusive e principalmente a Globo.
Na verdade isso me preocupa bastante por um outro ponto de vista. O atual Ministro da cultura tende a investir todas as suas fichas no audiovisual. Ele já deu a letra sobre isso desde que tomou posse. E com isso vai tirar de outras linguagens tudo o que tiver que tirar. E a grana necessária para a industria do cinema é bem grande.
Aliás isso já tem acontecido desde antes do Sergio Leitão. Fiz um curso com um pesquisador do IPEA que mostrou que 80% do Fundo Nacional de Cultura tem ido para o Fundo Setorial do Audiovisual há pelo menos um ano... (agora que o FNC tá praticamente zerado não sei dizer como isso está).
Nem na época da ditadura a industria do cinema saiu perdendo. Muito pelo contrário. Mataram o cinema de qualidade (cinema novo foi aniquilado) e investiram pesado na industria de filmes sem profundidade alguma e na TV.
Meus amigos do audiovisual tem falado pra mim desde o ano passado pelo menos que o Cinema de Retomada acabou por volta de 2014 e desde então vivem a fase do Cinema de Crise. Mais dificuldade pra captar e Globo Filmes devorando o Fundo setorial do audiovisual.
O audiovisual, assim como muitos outros setoriais da cultura, tem várias faixas de desenvolvimento econômico. Assim como tem os peixes grandes, tem os pequenos independentes, os que estão à margem, os que sempre viveram de baixíssimo orçamento. Esses sim continuarão à margem. Ou vão sumir de vez. Mas os peixes grandes continuarão levando muita grana. E agora levarão ainda mais das outras linguagens também.
Como sempre digo... quando o milho é pouco, os pombos brigam entre si.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cultura X capital


Uma das coisas que mais tem me chamado atenção tanto na minha pesquisa quanto na militância da cultura é o foco que a maioria dos trabalhadores da cultura tem em pensar apenas questões da linguagem artística em que atuam.
E não sou apenas eu que percebi isso.
Tem alguns artigos (muito sensatos por sinal) falando desta questão há algum tempo. E o quanto esse tipo de postura atrapalha a construção de novos modelo de gestão mais democráticos e financiamento à cultura de um modo mais amplo.
O foco do engajamento em relação a questão de linguagens específicas fica ainda mais claro quando pensamos que em raras vezes vemos o engajamento em relação a questões mais amplas, como modelos de gestão e financiamento e a questão da descentralização das verbas.
A única exceção talvez seja nos momentos das lutas por verbas e orçamento, porém, mesmo nessas situações, a disputa ocorre em termos de linguagens e não de lutar por um orçamento de modo geral. As militâncias das linguagens acabam se degladiando entre si ao invés de compreender que o ideal mesmo seria a mudança nos modelos de financiamento e a disputa por uma ampliação do orçamento como um todo.
Isso é bem curioso e perigoso.
Fica bem claro pra mim (e isso traz uma apontamento muito forte para minha pesquisa) de que as mudanças estruturais nos modelos de financiamento à cultura não ocorreram nos últimos anos não apenas pela falta de interesse do legislativo e do executivo mas também por falta de interesse real dos trabalhadores da cultura em alterar a logica do capital nas políticas públicas de cultura. Nesse caso, para essas pessoas, o importante é garantir a verba daquele edital "que eu sempre ganho", e não pensar que deveria ser mais importante pensar em mecanismos mais gerais que garantam uma distribuição das verbas mais democrática.
Esse interesse pelo engajamento de questões mais amplas acontece curiosamente na militância acadêmica. É bem comum as sessões de comunicação sobre financiamento terem bastante quorum.
Isso me lembra também de que outro indício que percebi na militância é que há pouco interesse em conhecer tecnicamente e profundamente a gestão pública de cultura de forma mais ampla. Poucos militantes da cultura se preocupam em entender profundamente o funcionamento do Sistema Nacional de Cultura por exemplo. Entretanto é bem comum ouvir destas mesmas pessoas críticas a ele que não procedem. (eu mesma tenho muitas críticas ao SNC, mas são bem diferentes das críticas que tenho escutado por ai).
Já pensei inclusive em fazer um teste para analisar isso.
Quando eu proponho um curso para ensinar a escrever projetos culturais, ou para uma lei de incentivo ou edital específico , lota. As inscrições acabam em poucos dias. Se eu oferecer um curso sobre modelos de gestão pública da cultura, focando no aprofundamento no SNC e PNC aposto que vai aparecer meia dúzia de pessoas. Já tentei oferecer esse tipo de curso em espaços e sempre escutava "esse tipo de curso não tem procura".
Ao fazer uma análise técnica sobre o desmonte, o que realmente está pegando de forma mais geral é questão da mudança de lógica no sistema de financiamento. Estamos voltando aos tempos do modelo puramente neoliberal. O modelo de balcão está vindo com tanta força que está tomando conta inclusive dos editais.
Isso se deve não apenas pelos governos neoliberais que estão ai, mas também pelo não fortalecimento na tentativa de mudanças do modelo de financiamento ao longo desses anos...
Lembro quando fizemos os encontros para falar da Procultura ano passado. Era muito dificil mobilizar interessados. A maioria das pessoas da cultura não tinham a mínima ideia do que se tratava e o quanto o Procultura era importante para a alteração estrutural na lógica do financiamento. Porém em alguns desses encontros algumas pessoas, com longa trajetória na militância, apareciam para revindicar pontos no projeto de lei da Procultura que deveria estabelecer beneficios à linguagens. Lembro inclusive de algumas reuniões em que deu até briga por isso.
Esse é um tema denso porém super necessário de se discutir e pensar. Não adianta tentar construir uma base de militância da cultura enquanto tem gente no meio defendendo um edital de fomento X ou a seleção de projetos por conta de sua "excelência artística". Por isso inclusive que a unidade no movimento da cultura é praticamente impossível.
Até quando a militância da cultura vai se enganar com esses discursos falsos de luta que na verdade demonstram um engajamento de caráter burguês pela manutenção de privilégios e vai encarar o macro e a mudança de lógica no financiamento visando a democracia na distribuição de verbas?

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O desmonte da cultura e o pedido de exoneração de João Batista Andrade.


Fico me imaginando na situação dele... ao mesmo tempo que seria absolutamente indigesto aceitar trabalhar com os golpistas, seria também uma responsa estar lá para segurar o desmonte. E pelas declarações que li sobre ele estar na pasta, essa era a intenção dele... Talvez tentar segurar o desmonte. Inclusive chegou a falar que era importante a mobilização popular para pedir mais verbas para a cultura. Sua exoneração deixa claro que não tem como segurar o desmonte. E que o MinC é de fato um ministério decorativo há pelo menos um ano. Já que Temer não conseguiu fechar o Minc (por causa da mobilização e das ocupações) ele desmonta e finge que tem um ministério...
Faz um ano que o Sistema Nacional de Cultura está parado. Apenas 4 municípios fizeram adesão ao sistema nesse periodo.
Algumas ações de construção estão rolando nos bastidores. Digo isso pois tenho amigos que estão operando nessas importantes ações. O MinC não está apenas operando a Lei Rouanet. Mas as ações além Rouanet que estão rolando acabam acontecendo na miuda.,tentando dar alguma continuidade a processos importantes que estavam rolando há muitos anos.
 Entretanto é bom lembrar que a parte mais importante do Sistema são os municípios. Afinal o Sistema se estrutura de fato de baixo para cima. E muitos municípios brasileiros estão neste momento ocupados na luta contra o desmonte dos sistemas municipais (como é o caso em SP).
A mudança na Lei Rouanet pela ultima instrução normativa, ao contrário do que tem sido veiculado pelo MinC, é um engodo. As mudanças não democratizam nada, não previnem nada. A Rouanet continua sendo um mecanismo excludente e sem ter outros mecanismos com caráter mais social operando junto, acaba impulsionando apenas os privilegiados de sempre. A cara do neoliberalismo.
O desmonte é cada vez mais claro. E ele está acontecendo não apenas em âmbito federal, mas também nos estados e municípios.
E ainda tem gente calada sobre isso... (os isentões)
Ou pior ainda... tem gente puxando saco dessa gente que desmonta.
A história da cultura nunca vai perdoar essa gente... nem os golpistas e nem quem os apoia. Seja no federal, no estadual e no municipal.
Mas João Batista sai dessa limpo e com sua trajetória relativamente salva. Ele viu o inferno de dentro e entendeu que na esplanada o jogo está perdido... por enquanto...
ps: porém a galera da cultura nunca esteve tão organizada e unida. E com isso eles não contavam... a luta continua!