quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Formalismo Russo e os contos mágicos de Vladimir Propp


A designação Formalismo Russo, segundo Todorov e Jakobson, tem cunho pejorativo e era como seus detratores se referiam aos métodos aplicados; mas foi assim que o movimento ficou conhecido até hoje. Destacavam-se no grupo os então estudantes Viktor Chklovski, Óssip Brik, Yuri Tynianov, Boris Eichenbaum, Boris Tomachevski e Roman Jakobson. Vladimir Propp foi um dos mais tardios a fazer parte do movimento.
Os objetivos eram aproximar a crítica literária, então empírica e positivista, de uma abordagem metodológica e científica; opondo-se as doutrinas simbolistas desprovidas de fundamentação filosófica e de método, ou seja, segregava as relações abstratas. Esta abordagem distanciaria as visões de segmentos das escolas literárias e se prenderiam de fato aos elementos de literariedade do texto, ou seja, aquilo que lhe confere caráter literário.
No inverno de 1914, em Moscou, um grupo de alunos funda o Círculo Lingüístico de Moscou; seus campos eram a poética e a lingüística que através de abordagens paralelas explicitaria referenciais comuns aos dois campos. Estas análises representaram significativa inovação nas relações entre literatura e lingüística.
Nesta época foi cunhado o termo função poética, que consolidou a relação dos referenciais conotativos como um elemento primordial na conformação do texto poético e direcionou os estudos naquela época.
A nova ordem social provocava seus reflexos na cena literária russa, e seus atores de vanguarda inquietos com o esgotamento da velha estética e buscando novas formas de expressão, aliam-se ao Círculo Lingüístico de Moscou; da mesma forma como a revolução alterara profundamente a Rússia os novos poetas pretendiam revolucionar a literatura do seu país.
O Formalismo durou em termos formais até aproximadamente 1930. O objeto de nosso estudo, o russo Vladimir Propp publicou seu principal estudo em 1928 conhecido no Brasil como “A Morfologia do Conto Maravilhoso”.
Através da análise de centenas de contos tradicionais, principalmente os de cunho “mágico” Propp propôs uma nova forma de análise literária destes. Esta análise porém também seria não apenas uma inovação na área da literatura, mas principalmente para a Semiótica moderna estruturalista, inspirando Greimas anos mais tarde em seu trabalho “Semântica Estrutural”.
Propp demonstrou em suas obras um grande interesse pelos contos populares, em especial pelos contos folclóricos russos. Pesquisando tais contos, percebeu a semelhança entre contos oriundos de culturas e localizações geográficas distantes, ao redor do mundo. Buscou então, em suas pesquisas, desvendar os mecanismos por trás desta profusão dos contos folclóricos a partir de três questões que lhe pareciam fundamentais serem abordadas — a forma dos contos de magia, as transformações ocorridas entre contos (que geravam novos contos) e as origens destes contos.
O trabalho de isolar as partes, descrevê-las e analisar as relações entre elas foi realizado meticulosamente. A morfologia, o estudo das formas, na botânica, inspirou Propp a buscar o mesmo nas narrativas folclóricas, nos contos maravilhosos.
Na época, os estudiosos de literatura centravam suas análises predominantemente nas questões de origem, de história. Propp mostrou que não se poderia partir da origem antes de entendermos o objeto real da análise. Primeiro seria necessário entender o que era o conto para depois analisar seu comportamento através dos tempos. Assim, com base em uma análise de um grupo de cem contos populares de origens diversas, Propp descobriu uma estrutura única composta de 31 funções, agrupadas em 7 esferas de ação: agrupadas em 7 esferas de ação:  O Agressor, O Doador,  O Auxiliar, A Princesa e o Pai, O Mandador (chamado mais tarde de Destinador), O Herói e O Falso Herói. Todos, segundo demonstrado em seu livro, seguem uma seqüência idêntica de ações a serem preenchidas pelas personagens. A essas ações ele dá o nome de funções das personagens.
As funções são retiradas da observação das narrativas, como se na verdade uma única narrativa fosse atualizada por diferentes personagens em diferentes situações, criadas por anônimos, ao longo do tempo, pela tradição folclórica de diferentes nações. É quase como uma narrativa que se narra sozinha.
O conto maravilhoso atribui ações iguais a personagens diferentes, por mais diferentes que sejam. Isto permite estudar os contos a partir das funções das personagens. É importante saber “o que” é realizado, e não por “quem” ou “como”.

Para Propp a sequência das funções é sempre idêntica. Pode acontecer de em alguns contos termos mais ou menos funções listadas, mas a ordem de acontecimentos dos fatos deve seguir a ordem de funções proposta por ele.

A obra em questão é detalhista. Propp não propõe imediatamente sua teoria. Inicialmente faz uma análise meticulosa de proposições diversas tentando entender primeiramente o que é o conto e como ele se constitui.

Analisa os elementos que servem para enriquecer a narrativa dos contos de magia, dando mais “brilho” ao conto que está sendo narrado. Funcionam como elementos de apoio, que preenchem lacunas deixadas pelas grandezas constantes e grandezas variáveis dos contos As funções dos contos de magia podem ser agrupadas de maneira lógica em esferas de ação. Tais esferas correspondem às funções que cada personagem realiza na narrativa. Não estão relacionadas às personagens específicas de cada conto, mas às categorias de personagens do conto maravilhoso, ou seja, ao papel que as personagens desempenham no enredo e ao conceito que estão representando.

Existem diversos exemplos desta mesma estrutura narrativa ao redor do mundo todo. O que varia, da primeira história para a segunda, é justamente aquilo que enriquece o conto e o aproxima do contexto sócio-cultural em que é difundido: as personagens e sua caracterização, a maneira diferenciada com que cada personagem realiza os procedimentos a ela delegados na narrativa e o cenário onde a história acontece.


A obra “Morfologia do Conto Maravilhoso” foi sem dúvida umas das maiores contribuições para o estudo da literatura e da linguagem no século XX. Propp foi um ousado vanguardista ao propor com tanta clareza e organização tais teorias para a análise de contos centenários. É evidente que após mais de 80 anos de sua publicação alguns pontos já foram superados ou mesmo reinventados de maneiras mais inteligíveis, principalmente pelos semioticistas franceses ou mesmo pelos teóricos de literatura mais atuais. Mas sem dúvida sua contribuição trouxe ao mundo da literatura não apenas uma nova magia, mas também uma visão de ás vezes linguagem pode ser organizada de maneira formal e previsível.

Bibliografia
Propp, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. Editora Forense Universitária, São Paulo: 2006.

Wöth, Winfried. A Semiótica no Século XX. Ed. Annablume. São Paulo: 1999.

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